Este bicho vem e é sagrado toda eu que não sou eu
a vontade de agarrar este bicho distrai
mas não destrói nem toca a serpentina
dançar é estar no mundo dos espíritos
dançar é permitir o invisível talhar este corpo

e é sempre a shapeshifter que ganha
e é sempre a shapeshifter que regressa

dançar é só pra quem não evita ser desmembrado
pelo desmembramento que é a Vida

e o meu templo é este laboratorium
de bichos e espíritos

(…)

Alquimista do Corpo, 2019

 

A lamentação e o sonho

Enquanto eu contemplava as informações que temos sobre a dissolução da linhagem das Devadasis, dançarinas e sacerdotisas nativas de templos na Índia, e suas histórias e revoluções, tudo que eu conseguia sentir era tristeza por essa imensa destruição. Mais uma destruição de uma linhagem ancestral e nativa de práticas que trazem conhecimento e com ela o esquecimento do processo sagrado entrelaçado com a dança.
Eu tentava compreender o que me atraia e o que ativavam essas histórias e ainda o que me traziam tantas emoções como dançarina:

– A aprendizagem era um compromisso devocional, um compromisso profundo, por um lado e por outro, existia um lugar para esse compromisso, um templo onde viver esse voto sagrado.
Não era tanto o tempo do compromisso, mas a sinceridade e a totalidade dele que me comovia, e entretanto das muitas pesquisas recordei também as sacerdotisas dos templos gregos, que poderiam comprometer-se por um período específico de suas vidas, em contraste com as sacerdotisas “para toda a vida”.

– A aprendizagem era um processo alquímico que estudava e pesquisava o desenvolvimento do Ser Humano como um complexo composto de muitos corpos em UM: celestial e cósmico, terreno ou físico-mental-emocional e veículo mercurial misterioso de transformação e metamorfose ad infinitum.
A Dançante aprendia a ser um instrumento refinado de transformação de energias humanas e divinas.

Percebi que sinto a Saudade dessas linhagens de dançantes – como alquimistas dos caminhos sagrados de energia vital – de templos de dança e de mestras e sinto o lamento das capacidades criativas, físicas e espirituais dos humanos, que se desenvolveriam dentro da continuidade deste processo.

Mas o mais importante para compreender, é o que permaneceu depois deste lamento inicial:

Permanece um sentido de sonho a seguir, este sonho de dar continuidade de alguma forma e trazer para a atualidade uma prática e ensino de dança onde TODO o nosso composto alquímico – físico, mental, emocional, sutil – é forjado e destilado com o poder mais predominante no universo: O PODER DO MOVIMENTO.
Permanece a perceção afinada de que nada está completamente quieto, estático – tudo está sempre em movimento aqui nesta Terra sagrada e para além, no céu e no cosmos.

Tudo se move dentro de nós, de maneira sutil, como danças só visíveis na eternidade.

Que eu possa curar o meu lamento com este sonho.

Não será o Movimento a lei que mais nos poderá relembrar da inteligência divina que envolve tudo o que nos move?

Vera Eva Ham. 2019