ARQUEOLOGIA DO MOVIMENTO 

CORPO ARCAICO, CORPO PRIMORDIAL

Ao longo da minha jornada de corpo e movimento, sempre fui atraída para danças com uma ancestralidade visível, como são as danças do Médio Oriente, do Norte de África e da Andaluzia flamenca. Mas na verdade, nunca me interessaram estas danças pelo seu aspecto folclórico particular, mas sim pelos movimentos residuais, vestígios do corpo arcaico que procuro ainda hoje no meu trabalho. Seguindo este fio condutor, quando me “encontrei”com a dança Butoh, com as suas raízes bem profundas aliadas à sua interminável e potencial  metamorfose contemporânea, foi um verdadeiro encontrar de sentidos e possibilidades para este corpo performático. Mas também a minha pesquisa de um feminino transpessoal e sagrado, através das personagens biblícas que resgatei na trilogia de performances site specífic Eva, Salomé e Madalena Mudra, trouxe-me novamente para este relacionamento com a história, com uma arqueologia dos movimentos, com a sua arché – origem. Por isso, creio que este é veramente um dos meus centros na criação artística e no meu percurso. Tal como o site specífic.
Daqui, para Mátria, foi um desenrolar, ou melhor, um escavar que me levou à própria Terra onde vivo: cada vez mais fui percebendo como a origem e o sagrado – das linguagens do corpo, das personagens, das histórias e da História – nascem e regressam do lugar singular, da sua geografia e dos seus elementos, do espaço que os/nos envolve, enfim, da matriz. Neste ponto, foi essencial para o meu percurso não só conhecer estes lugares, como habitar “neles”: vivo há quatro anos a 1 km do Cabo Espichel, e tenho pernoitado, caminhado, respirado este mesmos locais, grutas e paisagens, num aprofundamento constante da minha sensibilidade a eles. Então, quando me cruzei com o Carlos Alberto Cavaco, num dia intensivo de experimentação realizámos Pistis Mua | a pulsação da fé: um vídeo de 6 minutos filmado no Cabo Espichel, que foi o gatilho inspirador dum novo projeto – Mátria.
Através da ferramenta do vídeo, sinto que finalmente posso concretizar um site specífic total, sem abdicar da minha relação com o outro, o espetador, ou como muito sucintamente alguém me disse: “ tu danças onde queres, as pessoas vêem-te onde elas quiserem”.

MÁTRIA | o corpo antes da história 

Sinopse  
  Andamos nesta Terra há pelo menos 1 500 000. Nós, humanos, nascemos Nela, e sempre a Ela regressamos.    Quero conhecer esta Terra onde me deito, esta Terra onde me movo e acordo. Antes da História, das histórias, quando só havia Ela e os seus lugares prediletos, os lugares onde Ela se encontrava connosco em amplo espasmo e derramar. 

 Mátria. Quero desmembrar-me como a Ti desmembrámos, e voltar a amassar-me, amassarTe, e então coser-Te novamente, nos lugares onde ainda nos esperas, Inerente e Primal. Antes da História estavas Tu – nos meus pés, na minha face, nos meus sentidos e na gravidade que me acolhia. Nas minhas mãos, nas minhas vértebras e na vertical humanidade de mim. Tu estavas nos meus cabelos – tu eras os meus cabelos, abertos e espraiados como grãos de Ti, matriz de tudo o que poderá ainda existir.
Mátria é um projeto de dança, vídeo e performance que incide sobre o corpo e a história – especificamente a pré-história.O objecto final será um vídeo de dança com cerca de 20 minutos com imagens recolhidas em vários locais de Portugal com interesse pré-histórico. De forma a partilhar com o público este processo criativo, realizaremos performances-marcos ao vivo (dança, música e projeção de vídeo) em contexto museológico, ou relativo ao património cultural, nas localidades próximas, ou irmãs, dos lugares onde realizamos as filmagens.     A criação coreográfica e a performance constroem-se, por sua vez, em espiral sobre as forças arcaicas do corpo humano: os pés, a coluna vertebral, as mãos, a gravidade, a face, a verticalidade, os cabelos, os sentidos, a voz.
  O corpo antes da História é uma viagem sensível à matriz da cultura humana – mas muito especialmente, da cultura humana em Portugal.