DANÇA SAGRADA CONTEMPORÂNEA & VISIONÁRIA

Ao longo do meu percurso na dança, fui sentindo uma aproximação ao Coração daquilo que faz querer criar. Em 2011 já tinha uma sensação deste sentido, quando escrevi a Carta sobre a Presença (mais abaixo), na qual refletia que a Presença do performer e do público eram catalisadores de um estado de consciência particular, estado esse que sempre foi central para mim. Mas entretanto, ao iniciar a pesquisa das personagens femininas bíblicas, enquanto fui passando de Eva a Salomé, e de Salomé a Maria Madalena, outros aspetos se clarificaram.  Um destes aspetos é aquilo que chamo de Incorporação, e que descrevo como um abrir espaço-tempo dentro do corpo, de maneira a que possam entrar outros seres – pedras, animais, estrelas, forças da natureza –  trazendo outro movimento, outra presença, para além e através desse próprio corpo . Este processo é bastante desenvolvido na dança butoh, mas não é conseguido puramente com nenhuma técnica, nem somente com a imitação ou intenção deliberada. É o que muitas/os bailarinas/os já chamaram de ser dançada/o, ao invés de dançar, sendo que aqui, no Butoh e na Dança Sagrada, isto é levado a lugares desconhecidos e selvagens, lugares onde não existe mais Vera Eva  – as suas memórias, os seus desejos, a sua história, e o seu corpo, abrem-se plenamente a outras memórias, desejos, histórias, e corpos. Então, este poderá ser um pilar da Dança Sagrada: o Êxtase, que é este ficarmos fora, para que algo maior fique dentro; sairmos do caminho como criadores, pensadores, atuantes, e abrirmos a nossa presença, de modo a que esta seja sim cocriadora, co pensadora, co atuante. Sim, esto é um sentido misterioso, não-controlável, irracional, mas tenho uma profunda fé- também ela irracional e misteriosa –  que apenas assim, e para este sentido, a dança nasce infinita e inteira.

Vera Eva Ham, Equinócio de Outono de 2015.

Sobre a presença e a entrega

Quando encontro o fio condutor do meu percurso na dança, chego sempre aqui: entrega, o mistério da presença, momento onde tudo o que pode ser nomeado desaparece, e apenas estamos NÓS/ AQUI/ AGORA.  Encontro sempre este fascínio inabalável pela transformação da fragilidade de quem se entrega numa dança/performance, numa estranha força. In illo tempore, o tempo mítico e sagrado dos rituais arcaicos, onde tudo volta ao início, onde as formas estão fluidas,  e por isso podem ser Re-inventadas.  O ritual é a origem da performance artística, e esta entrega e presença, o fio que ainda nos liga a essa origem. A presença e a entrega, não acontecem apenas numa atuação artística. Elas espreitam diariamente ao nosso ombro, em situações prosaicas do chamado quotidiano. Mas devido á atual condição humana, e á crença obsessiva no tempo profano, linear – passado, presente, futuro – acabamos por esquecer-nos delas. E é aqui que a performance aparece, por que nos obriga a observar a presença, por que é a performance a própria ferramenta da entrega. Ela é partilhada pelos que nos veem, e estes responsabilizam-nos. Entretanto, a audiência é também levada a estar presente (e aqui, voltamos a estar ligados ao ritual arcaico, ás performances das mulheres e homens medicina). Performer e público funcionam como um catalisador da consciência, e por isso a arte não deverá ser desvalorizada, ou dessacralizada: não por que o Performer seja uma entidade divina, ou genial, a qual os outros assistem passivamente, mas por que juntos – e a própria performance – simbolizam e sublinham o processo que cada um possui individualmente: o que observa, e a matéria observada. E juntos, descobrem de que são o mesmo e apenas UM.


Vera Eva Ham, Janeiro de 2011