MADALENA MUDRA

solos

o selo subtil de Maria Madalena

Esta performance surge no seguimento, e como final de ciclo, da minha pesquisa centrada no feminino corrompido e demoníaco da tradição bíblica e nas suas personagens representantes, ainda visíveis sob a aparente modernidade a-religiosa.De Eva | guardiã obstinada da nudez paradisíaca, solo para o INNI fest em 2012, passando por Salomé e o Profeta, direção artística para a Festa do Sol com António M. Rodrigues e o colectivo Matridança e Salomé | alquimista do sangue femininoem 2014, dou um último passo (infinito) nesta procura transpessoal que entrelaça História, Mito, Transgressão e Revelação.

Por um lado, a criação de Madalena Mudra começou simplesmente com a afinação do meu corpo com a Terra, deixando que me atravessasse a potência do calendário cristão: aproximava-se a Páscoa e as ressonâncias com o Ovo, o renascimento do amante-filho e as cinzas foram integradas naturalmente na composição. O Ovo, como na história que anuncia ser Maria Madalena a primeira a ter visto Cristo ressuscitado, e que ao voltar e contar a todos a sua visão, foi interpelada por Poncio Pilatos que duvidou e disse ” Prova-o!”; nesse momento passou uma mulher a vender ovos numa cesta, Madalena segurou num deles firmemente e este adquiriu a cor vermelha. A confirmação deste acontecimento místico está ainda preservada numa estátua que a representa com um ovo colorido, na Catedral com o seu nome em Jerusalém*. As cinzas cobrindo todo o meu corpo, como na Índia as suas Bhairavis e os seus Sadhus se vestem, e como na dança butoh onde a metamorfose pede uma nova pele, não branca por ser ascendida e desligada da Terra, mas por que bebe dos processos alquímicos: as cinzas não podem ser lançadas ao fogo novamente e são assim, psicologicamente falando, livres do tumulto das paixões**. E finalmente, o Renascimento do amante-filho, nos mitos quase sempre realizado por deusas mistéricas como Ísis, na história como vimos, ligado também a Maria Madalena e ao Cristo ressuscitado, e na origem o Renascimento nos ciclos da vida, abraçado à Primavera e à regeneração vegetal e animal da Natureza, sem esquecer o nosso. Por outro, esta criação contém, além da minha sensibilidade e experiência como Mulher, o sentir biográfico e pessoal do dia-a-dia de uma sacerdotiza erótica feminina – uma Maria Madalena não arrependida, digamos assim.

Maria Madalena na história e na visão transpessoal

…Eu deparei-me com este vínculo em Jerusalém. Andava pela Via Dolorosa através das ruas sinuosas e estreitas da Cidade Velha para observar as estações da cruz. Na décima primeira estação, agora circundada pela Igreja do Santo Sepulcro, havia um belo mosaico acima do altar. Ele representava a Virgem Mãe toda vestida de preto, em pé, acima da figura do Cristo sendo pregado na cruz, ainda no chão.Muito próxima, de joelhos ao lado de Cristo, estava Maria Madalena profundamente angustiada. O mosaico representava-a com cabelos dourados, o que achei pouco comum considerando a sua origem hebraica. Na minha imaginação intuitiva, imediatamente vi a radiante e dourada Afrodite sofrendo a morte de Adónis, seu Senhor e Mestre, ou a bela Inanna chorando a morte de seu pastor-rei Dumuzi***

De facto, há muita incerteza e confusão à volta da figura de Maria Madalena. Como investigou a psicóloga jungiana Nancy Qualls Corbet, nem sabemos se seriam três mulheres – Maria Bethania irmã de Lázaro, Maria Madalena a quem aparece Cristo ressuscitado, e a “pecadora” – ou uma só mulher. Como vestígio desta confusão, temos a celebração da sua data, que na igreja grega é em três datas diferentes, mas na igreja ocidental é um único dia, 22 de Julho. Também não podemos assegurar ela seria o que chamamos hoje de prostituta: primeiro, a palavra pecadora a que ficou associada popularmente Maria Madalena aparece no livro The Golden Legend “e de tanto brilhar em beleza e riquezas, e de tanto submeter seu corpo ao prazer, ela, por esses motivos, perdeu seu verdadeiro nome e passou a ser chamada de pecadora”, mas nas escrituras bíblicas temos apenas Lucas 8,2 a referir-se a “algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e doenças, [incluindo-se] Maria chamada Madalena, da qual haviam saído sete demónios“, sendo que estes demónios, na época em causa, podem ser relacionados tanto com um carácter imoral, como com doenças e desequilíbrios mentais; segundo, no capítulo anterior Lucas descreve uma pecadora que se arrepende e lava os pés de Jesus, mas esta é anónima, assim só a convenção assumiu que ela seria Maria Madalena; terceiro, nos Evangelhos Gnósticos de Nag Hammadi encontramos uma Maria Madalena líder ativa no círculo de discípulos de Cristo, ou ainda como sua companheira, como revelou o gnostico evangelho Filipe ” a união do homem e da mulher como símbolo de cura e paz, [e] estende-se ao relacionamento de Cristo e Madalena que, diz ele, era frequentemente beijada por ele”, descrevendo ainda Maria Madalena como a companhia mais íntima de Jesus, símbolo da Sabedoria Divina e como uma mulher que conhecia o Todo ***. Finalmente, existem os relatos de Pistis Sophia de uma rivalidade a invadir o discípulo Pedro por este mesmo reconhecimento de liderança e sabedoria em Maria Madalena. Para contextualizar estas informações que perduraram graças à escrita, sabemos também que a prostituição sagrada nas religiões da Deusa do Médio Oriente, onde terá nascido Jesus e Madalena, fazia parte de uma espiritualidade divergente da hebraica, e era rodeada de uma sacralidade muito difícil de compreender e actualizar na mente ocidental monoteísta, então já despida do seu corpo e sexualidade naturais. A bíblia foi neste ponto, uma ferramenta de difamação e deformação profunda desta mesma sacralidade, para poder então  vingar uma religião monoteísta e regulamentada por patriarcas. E é neste pano de fundo que irrompe a minha visão de Madalena Mudra, como um CorpoAlma de re-encontro com as revelações necessárias (agora) para um equilíbrio mistérico e total entre a Santa e a Prostituta, entre o  Feminino e o Masculino, entre Ser e Fazer, entre o Sexo e o Transcendente, entre a Comunidade humana e a Natureza fundamental.

Abril de 2015, Vera Eva Ham

* esta lenda foi relata a Nancy Qualls Corbett por uma freira na Catedral de Maria Madalena em Jerusalém.**Abraham, A Dictinary of alchemical Imagery.*** todas as referências detalhadas de Nancy Qualls Corbett no ensaio The Sacred Prostitute.

Performer | Vera Eva Ham
Fotografia | Luis Conde e Joaquim Leal
Senhora d’Azenha 2015