SOMBRA CLARA | 2 solos butoh

solos

Dois solos de butoh: o primeiro, Apsara – nome que é dado aos espíritos femininos das nuvens e das águas na mitologia hindu – desliza sobre a água,as emoções e a metamorfose; o segundo, Mulher Sem Razão, reflecte sobre a presença do intérprete e do espectador e a possibilidade/impossibilidade de dar continuidade à relação entre xamã/mulher medicina e paciente/público.

ste último solo foi acompanhado pelos músicos Baltazar Molina e Ricardo Ribeiro.
Uma carta da Mulher Sem Razão:

Sobre a presença e a entrega
Quando encontro o fio condutor do meu percurso na dança, chego sempre aqui:
entrega, o mistério da presença, momento onde tudo o que pode ser nomeado desaparece, e apenas estamos NÓS/ AQUI/ AGORA.
Encontro sempre este fascínio inabalável pela tranformação da fragilidade de quem se entrega numa dança/performance, numa estranha força.
In illo tempore, o tempo mítico e sagrado dos rituais arcaicos, onde tudo volta ao início, onde as formas estão fluidas, e por isso podem ser Re-inventadas. O ritual é a origem da performance artística, e esta entrega e presença, o fio que ainda nos liga a essa origem.
A presença e a entrega, não acontecem apenas numa actuação artística. Elas espreitam diariamente ao nosso ombro, em situações prosaicas do chamado quotidiano.
Mas devido á atual condição humana, e á crença obsessiva no tempo profano, linear – passado, presente, futuro – acabamos por esquecer-nos delas.
E é aqui que a performance aparece, por que nos obriga a observar a presença, por que é a performance a própria ferramenta da entrega. Ela é partilhada pelos que nos vêem, e estes responsabilizam-nos. Entretanto, a audiência é também levada a estar presente (e aqui, voltamos a estar ligados ao ritual arcaico, ás performances das mulheres e homens medicina).

Performer e público funcionam como um catalisador da consciência, e por isso a arte não deverá ser desvalorizada, ou dessacralizada: não por que o Performer seja uma entidade divina, ou genial, a qual os outros assistem passivamente, mas por que juntos – e a própria performance – simbolizam e sublinham o processo que cada um possui individualmente: o que observa, e a matéria observada. E juntos, descobrem de que são o mesmo e apenas UM.

Criação e Performance | Vera Eva Ham
Fotografias | Fernando Costa
Centro Cultural Malaposta 2011