A SACERDOTIZA Eva D`Ophiussa

A Cigana cirandou pelas terras do Mediterrâneo, sem objectivo nem chegada, que não fosse cirandar e Saber. Cirandar e bailar fogos e ardores do Coração nas ruas da Velha Europa, cozinhar e dormir nas grutas da Andaluzia, vibrar e viver a vida dos Vales de Creta, cantar e sonhar uma nova Cultura religada em terras romanas, montar a tenda e procurar nas igrejas de França a Negra Maria, a Mãe, a Grande, Grande Mãe…e aí, num destes lugares (ou em cada um deles), a Cigana deixou de cirandar para fora, e iniciou a cirandar cada vez mais para dentro… enfim, uma Grande calma entrou no seu coração, e um doce desejo de perservar e permanecer ficou com ela. E sentiu: permanecer é Revolucionário. E pegou na caneta e escreveu:

numa comunidade frenética e inquieta, permanecer é revolucionário…num colectivo enlouquecido em todas/nenhumas direcções, ficar é estranhamente controverso…sim, ficar,
ficar a saciar com o nosso leite as nossas crias, anos a fio,
ficar a contemplar a mesma paisagem que me espanta
permanecer apaixonada por um homem infinito
incomoda, abala estruturas…
Numa Terra sem promessa
ficar, e cuidá-la, limpá-la, protegê-la
é perturbador,  é loucura…
E ainda, no meio do embelezamento etérico do Futuro
Ficar
Ser Raíz e crescer para Baixo
é provocador!
Dançar a mesma Coreografia (aquela que nasce continuamente no Príncipio)
Cantar a mesma canção!
Ah! Que revolução!

(mas atenção, este ficar não é esquecido da Alquimia visceral que nos mata e renasce cada dia,mas lembrado e irmão da voz que diz que é hora  de ser Radical e Ficar!

…e então Cantou baixinho, para não afastar a escuta de Si:

Sou uma Mulher no limiar entre o Animal e a Deusa. 
Vivo o máximo de Beleza disponível a cada momento.
Sirvo a Presença e a Entrega.
Exploro a Sabedoria infinita que rodeia cada manifestação dos ciclos da Vida.
Sou curiosa, aguçada, e não me aborreço facilmente com tanto Mistério*
Gosto de não saber e Caminhar de olhos fechados,
confiando nas pontas dos meus dedos, no meu nariz, nos meus Cabelos.
Gosto de estar aqui, precisamente neste Tempo que sussurra
mudanças inimagináveis.
Cada vez mais Realidade.
Agora é o Tempo de assumir cada vez mais o que já Sou e partilhar… e servir!
Crio, preservo e destruo com Amor
.


Consagrei-me a este serviço, entre irmãs – as Sacerdotisas do Amor e Amala –  e entre irmãos e irmãs da Fraternidade Jardim de Luz, ambas as consagrações em 2012.

Como missão e propósito, a minha pesquisa tem como centro a Presença de um feminino desconhecido, e por isso perturbador. Este feminino desconhecido é o agente regenerador da comunidade que vem, onde a Mulher-Sacerdotiza é, uma vez mais, a iniciadora e catalisadora de mulheres inteiras e homens inteiros

– mulheres e homens nas/os quais os condicionantes sociais e históricos são apagados até ao Ser Original e Paradisíaco.

“Antes da queda, embora não estivessem cobertos por veste alguma, Adão e Eva não estavam nus: estavam cobertos por uma veste de graça, que aderia aos seus corpos como um trajo glorioso.“ 

Giorgio Agamben